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Pensamento Sistemico

O PS aplicado ao dia a dia para produzir alternativas

O objetivo principal destes estudos é o aprendizado do Pensamento Sistêmico e de uma linguagem para representação de seus elementos e processos. Como o nome diz, foram feitos para serem estudados, o que quer dizer, após aprendidos os conceitos e compreendidos os estudos, aplicá-los a outras situações.

Apresentamos dois estudos de situações cotidianas. O primeiro é sobre a questão de lavar ou não lavar a louça suja. Surge uma importante diferença relacionado ao tipo de motivação da pessoa, por aproximação ou por afastamento. O segundo é sobre pais que ajudam filhos em tarefas escolares, onde mostramos que o tipo de ajuda dada, de resolução ou capacitativa, faz total diferença para o filho.

Para cada situação apresentamos sugestões de ações preventivas dos laços de realimentação e para intervenção quando já instalados.

Estrutura

Cada estudo pode conter as seguintes seções:

Contexto - Situação em que ocorrem laços sistêmicos; o espaço-problema.

Ciclo básico - Descrição e diagrama dos elementos principais envolvidos no contexto e suas relações de influência.

Observações - Especificidades, casos particulares e exceções ao quadro geral descrito.

Opções de prevenção - Alternativas de ação para prevenir a instalação de um  laço de realimentação indesejado.

Opções de intervenção - Alternativas de ação para modificação ou eliminação de um laço de realimentação em andamento.

Simbologia

(texto)   Indica uma variável relevante do contexto sob estudo ou uma condição associada à variável.

   Indica uma relação de influência entre duas variáveis. Por exemplo, a chama de uma trempe de um fogão influencia a temperatura da panela que está sobre ela.

+        Para uma relação de influência, indica que a influência é no mesmo sentido, isto é, se A influencia  A aumenta, B também aumenta, e se A diminui, B também diminui. Por exemplo, se a chama da trempe aumenta, a temperatura da panela também aumenta.

-         Para uma relação de influência, indica que a influência é em sentido contrário, isto é, se A influencia B e A aumenta, B diminui, e se A diminui, B aumenta. Por exemplo, quanto mais o furo da trempe está entupido, menor a quantidade de gás que passa.

Caso 1: Louça suja

Contexto:  Louça suja acumulada na pia da cozinha: pratos, copos, talheres, panelas.

Variáveis relevantes: 

- Quantidade de louça suja

- Disposição para lavar a louça

- Motivação para lavar a louça

Ciclo básico

Neste contexto, precisamos considerar as diferenças resultantes do estilo de motivação. Se a motivação é por aproximação, isto é, há algo que a pessoa quer ver concretizado, como "querer ver a pia limpa", não há um ciclo. Se a pia muda do estado "limpo" para "sujo", a ação natural da pessoa é lavar o que estiver lá, independentemente da quantidade:

 Quanto a motivação é por afastamento, como "não querer a pia suja" ou "não querer ter trabalho", são criados dois laços em que a disposição para lavar a louça depende da quantidade de louça suja e da motivação (veja o diagrama). Quanto maior a quantidade, maior a motivação e menor a disposição, caracterizando um conflito. A decisão da pessoa depende da intensidade relativa de disposição e motivação. No início, com pouca louça suja, a disposição é menor que a motivação e a louça é deixada de lado. À medida que a quantidade de louça suja aumenta, também aumenta a motivação, enquanto diminui a disposição, até que finalmente a quantidade ultrapassa um limiar a partir do qual a influência da motivação na disposição supera a influência da quantidade e a pessoa resolve então por mãos à obra.

Observações

-  O limiar de quantidade depende dos critérios pessoais. Para uma pessoa, "pia suja" pode significar dez peças sujas na pia, enquanto que para outra pode ser uma completa bagunça de louças, restos de comida, sujeira e mau cheiro.

-  A decisão de lavar a louça terá também relações com outros objetivos da pessoa e suas respectivas prioridades. Ela pode estar motivada e disposta, mas tem outras coisas (que ela julga) mais importantes para fazer.

Opções de prevenção

1) Ação na motivação: ao invés de decidir com base na situação atual, considerar o cenário futuro que ocorrerá caso nada seja feito, ou seja, imaginar que vai haver muita sujeira e muito mais trabalho.

2) Ação no estilo de motivação: se você já teve algum prazer em ver uma pia limpinha, lembre-se de uma situação em que isso ocorreu e projete-a no futuro próximo, em que ocorrerá novamente. Veja-se olhando a pia já limpa e cheirosa.

Opções de intervenção

1) Pedir a alguém para lavar a louça para você!

2) Na motivação: supor que alguém pode chegar a qualquer momento e irá julgá-lo pela bagunça que você deixou: "Hum, como Fulano é desleixado'.

3) Na quantidade: segmente sua decisão; ao invés de decidir lavar toda a louça, decida lavar parte, como só os talheres ou só os pratos. Depois decida de novo o que vai fazer. Se estiver assistindo TV, por exemplo, pode aproveitar os intervalos comerciais para cada etapa.

Caso 2:  Ajuda dos pais nas tarefas escolares dos filhos

Contexto

Filho tem tarefas escolares para fazer em casa, pode pedir ou não a ajuda de um dos pais e estes podem ou não ajudá-lo. Neste estudo consideramos um filho e respectiva mãe.

Variáveis relevantes

- Dificuldade da tarefa (como percebida pelo filho)

- Ajuda da mãe (algumas variações consideradas)

- A capacidade do filho (em geral, para a tarefa específica e iniciativa)

- Expectativa do filho de ter ou não ajuda no futuro

Ciclo básico

Quanto maior a dificuldade percebida pelo filho nas tarefas, maior a propensão deste pedir ajuda. Quanto maior a ajuda da mãe no sentido de resolver as tarefas, menor a capacitação decorrente do filho. Quanto menor esta, maior a dificuldade que este percebe nas tarefas posteriores, e maior é a propensão ao pedido de ajuda. Pela presença de uma influência negativa, fica caracterizado um laço de equilíbrio, orientado para a meta de resolver a tarefa: uma vez que isso ocorre, o ciclo é interrompido: não havendo tarefa não há dificuldade e assim não há pedido de ajuda e a capacidade do filho fica inalterada, no que depende de dedicação dele.

 A repetição da ajuda condiciona a expectativa do filho de que será ajudado nas próximas tarefas. Assim, a cada ajuda aumenta a probabilidade de que esta seja solicitada, uma realimentação adicional de reforço:

 Ou seja, quanto mais a mãe ajuda o filho, mais ele pede ajuda e a recebe, menor sua capacidade e maior a dificuldade que ele percebe nas tarefas, o que faz com ele peça ajuda e, em recebendo-a, cada vez espere mais ajuda e o resultado é que o filho se torna cada vez mais incapaz relativamente às tarefas escolares.

Variando o tipo de ajuda

Caso a mãe modifique o tipo de ajuda que fornece ao filho, ocorrem importantes alterações no laço básico. Suponha que a mãe adota uma postura de condução apenas, seja no sentido de indicar pontos de partida, seja fornecendo estratégias para abordar as tarefas. A relação entre a ajuda da mãe e a capacitação do filho é invertida, e ela passa a contribuir (para maior facilidade, não estão representadas as influências relacionadas ao esforço de resolução:

 O ciclo maior tem agora somente uma influência negativa, o que o caracteriza como um laço de auto-reforço, ou seja, quanto mais a mãe o ajudar, mais capaz ele se tornará.

Gerenciando as expectativas do filho

Se considerarmos que a iniciativa de buscar soluções faz parte da capacidade do filho, ainda temos um fator limitante, que é expectativa de obter ajuda, resultado de um padrão de sempre atender ao filho. Veja no diagrama abaixo: quanto maior a iniciativa, maior a capacidade, e quanto mais a mãe ajuda, menor a iniciativa.

 Como a atitude do filho decorre de um padrão de comportamento da mãe, se esta o variar de forma que o filho não perceba um padrão e não conte com sua ajuda,  não haverá a expectativa de sempre obter ajuda, e algumas vezes o filho terá que tomar a iniciativa. O resultado é que, nas vezes em que o fizer,  sua capacidade tende a aumentar. Ou seja, se ele pede ajuda ou se toma a iniciativa, ele se capacita, o que está representado no diagrama abaixo (o sinal +- indica a possibilidade de o filho tomar iniciativa ou não).

 Note que cabe á mãe evitar que os laços limitantes se instalem, seja não caracterizando um padrão (como sempre ou nunca ajudando, ajudando toda terça-feira), seja ajustando as expectativas desejadas no filho, informando-o de que às vezes terá e ás vezes não terá ajuda, e que ela quer que ele tenha iniciativa porque isso é importante para o seu futuro, e que é importante saber buscar um ponto de partida, que o que precisamos na maioria das vezes é apenas um ponto de partida e outras conversas direcionadoras para o que realmente importa no contexto, que é a capacitação do filho. Talvez seja desnecessário dizer que em todo diálogo estão como fatores coadjuvantes a credibilidade de um perante o outro e a qualidade do relacionamento. Bem, estes devem ser outros bons temas para estudos de ciclos sistêmicos!

Por que aprender o Pensamento Sistêmico

Uma visão geral para você decidir se vale a pena

Nossos modelos mentais afetam a nossa forma de perceber o mundo, de pensar sobre ele, querer coisas nele e em nós mesmos e também as ações que temos à disposição para concretizar o que queremos. Se nossos modelos mentais são apropriados para a parte do mundo que estamos modelando, nosso modelo será mais útil. Já se o mundo estiver estruturado de forma diferente à que estamos usando para pensar,  então poderemos ter dificuldades.

Vamos ver aqui o que são sistemas e algumas de suas propriedades, que o mundo é nivelado e que cada nível tem sua própria forma de organização. Alguns desses níveis são sistêmicos mas nossas formas de pensar sobre ele podem ser predominantemente lineares, o que causa uma série de problemas e desconfortos. Finalmente, listamos alguns dos benefícios de você pensar sistemicamente.

O que são sistemas

A palavra sistema já foi usada para referir-se a muitas coisas: ao país, ao governo, a um conjunto de programas de computador, aos programas que controlam o computador, à natureza e outros. Em sua acepção mais ampla, dizer que algo é um sistema significa afirmar que esse algo é constituído por um conjunto de partes que se influenciam mutuamente. As partes podem ser pessoas (como em uma família ou time), conceitos e idéias (como em um conjunto de princípios e valores de uma empresa) e até processos (como no ciclo da chuva, que inclui a evaporação da água, formação de nuvens, precipitações, infiltração no solo, e por aí vai).

Veja uma outra definição de sistemas:

"Um sistema é um todo percebido cujos elementos mantêm-se juntos porque afetam continuamente uns aos outros, ao longo do tempo, e atuam para um propósito comum" (Peter Senge e outros, A Quinta Disciplina - Caderno de Campo).

Em um sistema, todas as partes atuam em conjunto, e em harmonia com seu ambiente, que é um sistema maior, para que o sistema funcione adequadamente. Tentar compreender somente uma parte de um sistema pode não funcionar, porque há dependências daquela parte com as demais.

O Pensamento Sistêmico é a "quinta disciplina" definida por Peter Senge, que faz parte e suporta as outras disciplinas da "organização que aprende". Senge direcionou seu trabalho para empresas; nossa intenção é colocar o PS ao alcance das pessoas, para aplicação no cotidiano. Como você vai ver, sistemas são tão comuns que pode parecer paradoxal que essa percepção não faça parte da nossa cultura, das nossas conversas e das nossas referências de decisão.

Modelos de causa e efeito

Uma das referências que usamos para decisão é a previsão dos acontecimentos, baseados nos padrões observados na experiência. Você sabe por que não deve jogar uma pedra bem acima de sua cabeça. Também sabe o que vai acontecer se demorar com a mão no fogo ou no calor. Você também se conhece e a outras pessoas e sabe que deve evitar certas coisas porque provocam reações ou respostas desagradáveis. Esses padrões são parte dos nossos modelos mentais.

As causas e os efeitos no mundo podem aparecer de várias maneiras. A mais conhecida e usada por nós é a causa e efeito simples: por a mão no fogo/queimar, abrir a torneira/sair água, tomar choque se puser o dedo na tomada.

Quando se lida com um sistema, dificilmente se tem a regularidade uma causa/um efeito, já que cada parte está recebendo influências de várias outras. Outras possibilidades que ocorrem em sistemas são:

Múltiplas causas/um efeito - Por exemplo, um palanque desaba devido ao efeito de vários pessoas e equipamentos.

Uma causa/múltiplos efeitos - Exemplos: uma enchente (efeitos nas pessoas, construções e ambiente);.fazer um gol de placa (efeitos: o gol, a alegria, a glória...). Os efeitos podem estar encadeados, como no caso de uma gripe, que o/a impede de ir ao trabalho, que lhe dá tempo de ir ao site Possibilidades e descobrir algo bem legal que é útil para o resto da sua vida...)

Múltiplas causas/múltiplos efeitos - Esta estrutura é comum nos sistemas. O que você está fazendo agora decorre de uma série de circunstâncias passadas: comprou um computador, registrou-se em um provedor de acesso, descobriu ou ouviu falar do site e outras mais recentes, como sentar-se, ligar o computador e navegar. Um acidente de trânsito pode ter ocorrido por causa de um buraco na rua, imprudência de um motorista, falta de experiência do outro que se assustou e também da falta de manutenção dos carros. Efeitos do acidente podem ser alterações na rotina do dia, efeitos no seguro e impactos psicológicos em outras pessoas envolvidas. 

Mesmo se seu modelo mental contempla várias causas e efeitos, pode não ser suficiente. A mais importante estrutura de causa e efeito nos sistemas é o laço de realimentação, que por isto merece tratamento especial.

Laços de realimentação

Você certamente já sabe o que é o efeito bola de neve. Por exemplo, quem é rico fica cada vez mais rico ("pode ficar", melhor). Quanto mais você aprende, mais pode aprender, porque sua capacidade de aprender depende do que você já sabe. Quando os efeitos são negativos, tais ciclos são chamados de círculos viciosos, como no caso das vinganças sucessivas entre famílias ou gangs. Quando ocorrem esses círculos, é porque o que era um efeito, como ficar rico, se tornou uma causa de si mesmo, fechando um círculo ou laço. Assim como sistemas estão por toda parte, esses laços podem ser vistos por todos os lados.  Veja alguns exemplos:

- Os clientes satisfeitos de um produto contam para os amigos, que compram o produto e ficam satisfeitos, e então contam para seus amigos... (diagrama).

 

- Em uma briga ou discussão, alguém faz algo que provoca uma resposta do outro, e esta provoca nova resposta do primeiro, e assim por diante.

- Nos motores a combustão interna, que são os de automóveis e motos, a rotação do motor é que provoca a alimentação de combustível, e por isso ele precisa iniciar sua rotação para que o ciclo alimentação-explosão-rotação-alimentação funcione (e é por isso que é preciso um motor de arranque).  Veja o diagrama abaixo.

 

 

Esse tipo de estrutura cíclica de causa e efeito é chamado de laço de realimentação, no qual todo efeito é também uma causa, e vice-versa. O nome espiral causal também é interessante (embora tenha o eco "al-al"), porque indica ao mesmo tempo o laço e o fato de que, quando ocorre a realimentação, o estado do sistema em questão está um pouco diferente do anterior. 

Deve-se ter um cuidado especial com esse conceito ao aplicá-lo a sistemas complexos como seres humanos e outros organismos que mudam de estado e possuem algum grau de flexibilidade, já que a mesma causa nem sempre vai provocar o mesmo efeito, porque o sistema pode ter nas outras vezes uma resposta diferente. Em muitas situações será mais apropriado dizer, ao invés de causa, influência. Nem sempre podemos causar efeitos em seres humanos, mas quase sempre podemos influenciá-los. Isso vale também para outros sistemas complexos e com algum grau de imprevisibilidade, como o... Windows! E quando você busca influenciar um sistema, nem sempre o efeito desejado ocorre na mesma hora: pode haver uma defasagem.

Defasagem

Um outra característica das influências em um sistema é que pode haver uma defasagem entre a influência e o efeito. Se você já convidou alguém para uma festa, sabe que o convidado pode responder na hora ou demorar horas. O corpo, quando é machucado, tem uma defasagem natural e conhecida para se "consertar". Se você usa computador, sabe que há uma defasagem entre ligar e ele iniciar, entre clicar e o programa abrir, entre mandar salvar e isso acontecer. Pior: para uma mesma ação, a defasagem pode variar: às vezes é rápida, às vezes demora, às vezes nunca acontece... Por isso é que é bom reforçar: não causamos nada em sistemas complexos, apenas os influenciamos e aguardamos algum tempo.

A defasagem é um importante fator do Pensamento Sistêmico, porque a partir da nossa experiência  com as defasagens é que determinamos o que vamos esperar que aconteça.

Um mundo de níveis e os níveis do mundo

A sua percepção pode estar direcionada para níveis variados. Considere, por exemplo, este texto. Você está percebendo letras, palavras e frases, interpretando-as e formando um modelo mental de compreensão do que lê. Estes escritos estão disposto em seqüência: uma palavra após a outra, uma frase após outra, parágrafos e seções, o que caracteriza uma organização linear no nível de construção.

Já no nível semântico, de significado, existem muitas ligações entre as palavras. O "que" três linhas acima tem uma ligação com as palavras que vêm antes. É por isso que o "que" nesta função é chamado pronome relativo, porque estabelece uma relação. Há uma dependência muito grande entre os elementos da linguagem escrita ou falada, tanto que excluir ou trocar de lugar uma única palavra pode prejudicar a compreensão ou até mudar o significado.

Mas suponha que por algum motivo você não estivesse querendo entender, estivesse querendo perceber as diferenças entre as fontes,  ou seja, o desenho das letras. Por exemplo, qual é a diferença entre a letra "e" preta e a colorida? Neste, caso você não estaria interessado no significado, e sim nas imagens das letras. Quando você escreve, está também desenhando (independentemente da qualidade...). 

Nosso corpo também tem vários níveis: a superfície, que determina a aparência, o nível dos órgãos, o nível de tecidos, o de células, moléculas, átomos e além.

Assim como um texto e o corpo, também nosso mundo pode ser observado em vários níveis, cada um com sua organização. Se prestamos atenção ao nível dos acontecimentos, distinguimos seres, coisas e fatos: Fulano foi ao banco, depois ao trabalho, depois para casa. O sol nasceu, percorreu o céu e se pôs. No nível dos acontecimentos, a organização é linear.

Já se prestarmos atenção nas imagens, notamos arestas e formas, cores e distâncias relativas. Esse é o olhar do desenhista e do pintor. Estes não querem saber se algo é feio ou bonito, eles notam o que é importante para o que querem fazer.

Um outro nível em que podemos notar o mundo é das relações e padrões, o nível da compreensão. As relações podem ser bem variadas: sociais (é-marido-de, é filho-de, é-dono-de),  causa e efeito (o papel voou por causa do vento que entrou pela janela aberta; o site fez sucesso porque tem conteúdo interessante, é bem feito e foi bem divulgado; as temperaturas subiram devido à corrente marítima chamada El Niño) e várias outras.

Também podemos observar o mundo do ponto de vista estrutural, de sua composição: substãncias, moléculas, átomos e quarks, no nível macroscópico, e planetas, estrelas e galáxias no nível macroscópico.

Sistemas no mundo

Vivemos em um mundo que é uma combinação de linear e sistêmico. Estamos familiarizados com acontecimentos e padrões lineares; vamos ver alguns exemplos comuns de sistemas:

- Um time de futebol é um sistema, e quando joga, interage com outro sistema.

- Um computador tem um sistema no hardware, formado por processador, memória, periféricos e outros componentes. Cada software também pode ser um complexo sistema de milhares de programas relacionados entre si. O mesmo ocorre com o sistema operacional que controla o computador.

- Um país é um conjunto de subsistemas se influenciando mutuamente. Famílias, condomínios, bairros, cidades e estados formam uma hierarquia de sistemas. Existe o sistema econômico-financeiro, que influencia o comercial e vice-versa. Tem o sistema de segurança, em vários níveis. Tem o sistema de comunicação público e os privados, como a TV por cabo. Tem também os sistemas de previdência e saúde e de transporte.

- O ambiente em que vivemos tem muitos subsistemas. Cada animal ou ser é um sistema, relacionando-se com os demais em uma incrível rede de causas e influências.

- Seu corpo é de fato um sistema de subsistemas. Os órgãos são formados de sistemas de tecidos, que por sua vez são formados por sistemas de células. 

E sua mente, será um sistema? Freud modelou nossa mente em inconsciente, ego, id e superego. Jung já enxergava o inconsciente coletivo e a anima, enquanto que outras linhas de terapia têm outras distinções. Se você tivesse nascido oriental, acreditaria piamente na bioenergia, e a usaria na acupuntura e no do-in. Alguém que pratica PNL (Programação Neurolingüística), tem a opção de tratar a mente com mais flexibilidade, modelando "partes" conforme o objetivo: sonhadora, criativa, a parte responsável por um comportamento. 

A Enciclopédia de PNL (www.nlpu.com) menciona que cada um de nós, em média, é parte de 162 sistemas.

Adequação do modelo de pensamento

Quando você pensa no tempo, seja dias, semanas, estações ou anos, deve aplicar uma estrutura de pensamento linear, ou seja, em seqüência, um elemento após o outro. Já quando escreve, deve estar atento às relações entre as palavras, e aí você pensa sistemicamente. Já se tem um site ou se for fazer um, sua navegação pode ser linear ou sistêmica. Este site, por exemplo, tem navegação sistêmica, porque há links de muitas páginas para várias outras; há sites que seguem uma seqüência. Já as seções tem organização predominantemente hierárquica, como uma árvore, que é uma combinação de várias "linhas", o chamado pensamento radiante: a partir de um centro, se irradiam vários elementos, como o organograma de uma empresa. Quando eu penso nas seções do site, uso pensamento linear e, quando escrevo, uma mistura de linear e sistêmico: ponho as palavras e demais itens em seqüência enquanto trato as ligações entre os elementos sistemicamente.

A estrutura ou modelo de pensamento que alguém aplica para modelar o que está percebendo deve ser adequada ao tipo de organização do nível que está observando. Pense em um treinador de algum esporte coletivo que pensa linearmente sobre os jogadores e o jogo; talvez ele nem consiga explicar o que é "entrosamento". O mesmo vale para um líder ou um jogador de xadrez. Este é um bom exemplo do pensamento sistêmico: um contexto ou todo, várias forças distintas relacionadas entre si que devem ser organizadas rumo a um propósito. 

Se você já viu um filme com viagens no tempo e teve a sensação de um "nó" mental, é porque está acostumado a modelar o tempo linearmente, e as viagens no tempo criam relações de causa e efeito não esperadas e sistêmicas. Se você admitir que o futuro existe e que as viagens no tempo são possíveis, aplicará estruturas de pensamento apropriadas e isso se tornará "normal".

O ponto mais interessante aqui é que todo modelo representa uma simplificação da realidade modelada, e se minha forma de pensar simplificar demais meus modelos, eu perco informações e isso se reflete na qualidade das minhas escolhas.  

Isso implica que, se você não está gostando muito de algumas coisas que pensa e faz, e se muito do que tenta não dá certo, isso pode ser porque você está deixando de lado, em seus modelos mentais, coisas importantes de você, dos outros ou do mundo em que está vivendo. Uma das formas de fazer isso é pensar linearmente sobre uma parte ou nível do mundo que é sistêmica.

Efeitos do pensamento linear no dia-a-dia

Vamos mostrar aqui alguns possíveis efeitos do uso inadequado do pensamento linear no dia-a-dia das pessoas. É claro que cada problema constitui uma oportunidade de melhoria, essa é a sua natureza. Se você se identificar com alguma das opções, já sabe que tem uma possibilidade de aperfeiçoamento. 

Não seja muito severo na sua avaliação, já que, se você está aí e agora, com tempo, tranquilidade e recursos suficientes para ler este artigo, seus modelos mentais têm riqueza e qualidade suficientes não só para você viver como está vivendo como também para lhe permitir buscar melhorias e inovações, o que certamente está fazendo agora.

Foco - Uma pessoa pensando linearmente trabalha focada em uma parte, em uma perspectiva. Isso pode conduzir a notar somente um aspecto ou lado de um assunto: só vantagens ou só desvantagens. Um dos efeitos disto é a motivação só pela necessidade ou só pelo prazer.

Quando uma pessoa tem um padrão ou hábito de focar o que está faltando, pode ficar "eternamente" insatisfeita. Por exemplo, alguém se separa porque encontra defeitos no outro, e se casa de novo. Como é o padrão de pensamento o fator essencial da avaliação, ele continuará a fazer o que sabe, que é procurar o que está faltando. Se o novo cônjuge não for perfeito, segundo seus critérios de perfeição, fatalmente ocorrerá nova insatisfação.

Desequilíbrios - Uma pessoa pensando linearmente tende a extremos, seja "pensar em si mesmo" ou "se dedicar a outras pessoas". É egoísta ou santa, ela pode não conseguir encontrar alternativas de ação que integrem, por exemplo, seus interesses, os da outra pessoa e possivelmente outros, como valores ambientais. 

Um comerciante pensando linearmente, por exemplo,  terá dificuldades em gerenciar todos os aspectos do seu negócio. Uma pessoa não sai da academia porque só consegue enxergar o corpo, enquanto que outro só quer saber de aprender. 

Pensar por julgamentos - Como tem dificuldades em tratar múltiplas variáveis, a pessoa ao pensar linearmente tende a fazer resumos ou sínteses na forma de impressões, que podem virar julgamentos. Combinada com o foco único, o julgamento pode virar preconceito, que consiste em focar e avaliar com base em um só aspecto: cor da pele, raça, altura e outros bem conhecidos. Note que o mesmo pensamento linear também leva a pessoa a focar um aspecto favorável e esquecer outros, como cor dos olhos ou beleza, e a rótulos, como "bobo" e "incompetente".

  O efeito do pensamento linear pode ser dramático no caso das reações pessoais a falhas, erros e fracassos, como no caso de alguém que não consegue algo que quer, seja um emprego, uma namorada ou coisas mais simples e fica chateado ou deprimido. Em alguns casos extremos, uma pessoa pode até pensar em suicídio por apenas um episódio que não terminou como ela esperava. Não são buscados todos os demais aspectos da situação, como o que pode ser aprendido, interpretações segundo pontos de vista distintos, efeitos benéficos futuros e outras possibilidades de ação que poderiam conduzir aos mesmos propósitos da pessoa.

Redução da intensidade do prazer ou intensificação da dor

Um dos efeitos de ter foco restrito da atenção é a redução de fontes de prazer. Uma pessoa beijando outra, por exemplo, pode ter várias fontes de prazer: as sensações dos lábios, o contato da mão com os cabelos, outros pontos de contato. O pensamento linear tende a direcionar a atenção ao local das sensações predominantes, como as dos lábios, e perder outras possíveis sensações prazerosas, inclusive algumas mais subjetivas, como o fato de ter alguém a quem beijar, poder estar beijando naquele momento, não ter nada atrapalhando. O pensador linear não percebe as múltiplas fontes de prazer que podem existir.

Note que a mesma forma de pensar que reduz o prazer faz com que a pessoa sinta mais dor. Uma pessoa com uma dor no pé tende a concentrar toda sua atenção na dor, em detrimento de todas as outras regiões do corpo que não estão doendo. Alguém que tenha um problema no trabalho pode ficar focado no problema e esquecer todas as outras coisas que estão bem.

Expectativas distorcidas - Por falta de considerar múltiplos efeitos, acontecem mais coisas do que a pessoa espera ao agir. Isso pode ser agradável... ou não.

Outro tipo de distorção está relacionado às expectativas de defasagem. Se eu espero aprender algo em três horas e isso não acontece, posso até concluir que "não sou capaz" e desistir. Expectativas irreais de defasagem podem induzir na pessoa respostas de ansiedade, preocupação e medos.

Busca por solução única para um problema - O pensamento linear afeta também a estratégia para lidar com os problemas, criando a tendência de procurar uma ação que resolva tudo. Alguém de ressaca, por exemplo, pode pensar somente em tomar um comprimido, ao invés de buscar múltiplas influências, como tomar uma sauna, uma banho, tomar água e sucos para repor os líquidos e possíveis combinações.

Na educação de crianças, o modelo mental de causa e efeito simples conduz à busca por uma única ação que provoque os resultados desejados. Como isso nem sempre funciona, pode haver uma tendência de buscar soluções mais agressivas, que atendam às expectativas de defasagem curta, em detrimento de ações contínuas que gradativamente conduzam ao objetivo.

Interpretações pobres - A forma como interpretamos os fótons, vibrações do ar (a que chamamos som) e as sensações que percebemos pode ser bem variada e tem impactos profundos na nossa experiência. Um exemplo de interpretação é de dores. Um dia, eu fui ao dentista tratar de uma "dor de dente". Ele abriu o dente e não achou nada. No fim das contas, a dor era de uma sinusite. Adolescentes se matam porque acreditam que "não são amados". E em um caso curioso que ouvi, uma pessoa humilde afirmou que não votaria em um certo político porque o ouvira dizendo que ia "acabar com os pobres".

O pensamento linear conduz à interpretação única, a uma única visão ou perspectiva de uma situação. Como a interpretação afeta as ações possíveis, a pessoa pode ficar paralisada por não perceber outras formas de interpretação e consequentemente de ação.

Causas e efeitos distorcidos ou incompletos - Quando alguém diz algo como "Fulano me fez ficar com raiva com aquela atitude", está desprezando todas as variáveis relacionadas a emoções que estão dentro dela própria. No corpo de quem efetivamente estão acontecendo os processos emocionais? Onde foram iniciados? Outra pessoa na mesma situação poderia simplesmente rir do que aconteceu.

De forma análoga, o pensamento linear conduz à simplificação das causas de doenças. A pessoa acredita que vírus causam gripe, e elimina todos os demais fatores. Afinal, os vírus estão em nosso corpo a todo momento, e somente em certas condições do sistema imunológico eles são ativados. Uma evidência disso é que, dos atingidos pelo mais fatal dos vírus de que já ouvi falar, o ebola, ainda sobrevivem 10 por cento. 

Conflitos - Nossa mente permite que tenhamos simultaneamente vários objetivos e outros tipos de direções. Podemos estar querendo comprar alguns bens materiais, adquirir certos conhecimentos ou habilidades, realizar um sonho, educar filhos, descansar e outras tantas coisas. Uma mente pensando linearmente não consegue trabalhar em conjunto tantos objetivos, o que pode gerar conflitos e dilemas: quer estar com o filho e descansar, não consegue priorizar compras. Um efeito disso pode ser a oscilação, cada hora quer uma coisa e pouca realização resulta.

Decisões de baixa qualidade - Uma decisão pode envolver muitos aspectos: a situação atual, quem está envolvido, o que aconteceu para a situação ficar como está, desdobramentos futuros da situação, opiniões pessoais e julgamentos sobre os envolvidos, os objetivos e valores pessoais e dos envolvidos e outros. Uma decisão que envolva vários fatores, tomada com base em pensamento linear, pode ser instável e gerar arrependimentos, porque não foram levados em conta todas as variáveis e a pessoa descobre novas possibilidades com o decorrer do tempo.

Alguns efeitos sociais - A não compreensão sistêmica de um mundo sistêmico tem seus efeitos na nossa sociedade. Considere, por exemplo, a imprensa. O terrorismo, para seu sucesso, depende da divulgação dos seus feitos ao público; se isso não ocorresse, só o saberia quem estivesse próximo do local da ação. A imprensa, portanto, quando divulga tais ações, se torna parte do laço que sustenta o terrorismo. Não estou julgando, não sei o que é melhor, mas o fato é que assim acontece.

Quando há alguma iniciativa para se aumentar o nível de emprego de um país, por exemplo, não se pode pensar linearmente, porque para se empregar é preciso empresas, que têm produtos e serviços, que têm que ser consumidos pela população, que para isso precisa de emprego e renda.

Benefícios do pensamento sistêmico

O  Pensamento Sistêmico suporta, facilita e conduz-nos a:

- consideração de múltiplos focos, aspectos, variáveis, partes e relações;

- usufruirmos de múltiplas fontes de prazer, com a intensificação resultante da multiplicidade. Na dor, permite maior equilíbrio perceptivo.

- busca por várias soluções combinadas para resolver um problema, inclusive empilhando-se planejamentos, isto é, atingir vários objetivos simultaneamente, como também aprender algo com a situação, em um horizonte de tempo mais realista;

- gerar várias interpretações, sem necessariamente fazer os "resumos" ou impressões.

- pensar em possibilidades não necessariamente integradas;

- busca por alternativas antes da escolha.

O sucesso da raça humana neste planeta depende do equilíbrio entre atendimento às necessidades individuais, sociais e ambientais. Como há uma interdependência entre esses três níveis (veja Suas Capacidades: Quem é você? Suas múltiplas identidades), torna-se crítico para nossa sobrevivência que aprendamos a atender aos interesses pessoais, coletivos e ambientais. Pensando linearmente sobre o que é sistêmico não somos capazes de fazer isso. Pensando sistemicamente é que conseguimos perceber que somos parte de vários todos, de vários sistemas inter-relacionados, com a característica de que os únicos que podem fazer escolhas e são causas dos demais níveis somos nós, humanos.

Anedotas e casos sistêmicos

Diversão e inspiração

Nada com que se preocupar

Numa charge, cenário de mar, ao fundo um navio naufragando, em primeiro plano várias pessoas estão em uma canoa. De um lado, há um furo na canoa, a água entrando e algumas das pessoas estão tirando a água. Do outro, um dormindo, outros folgados olhando. Um destes diz, com ar jocoso:

- Esquenta não, pessoal, o furo é do lado deles!

(Autor desconhecido)

Ensinamentos do pajé

Alguém perguntou a um índio de 101 anos, um xamã, um pajé americano: 

- O que você faz? Ele disse:

- Eu ensino meu povo.

- O que você ensina?

- Quatro coisas, ele respondeu. Primeiro, a escutar; segundo, que tudo está ligado com tudo; terceiro, que tudo está em transformação; quarto, que a terra não é nossa, nós é que somos da terra.

(contada pelo psícólogo Roberto Crema)

A parábola do sapo escaldado

Se você colocar um sapo em uma panela de água fervendo, ele tentará pular para fora da panela imediatamente. Mas, se colocar o sapo em uma panela com água a temperatura ambiente, sem assustá-lo, ele ficará dentro da panela. Agora, se colocar a panela no fogo e aumentar gradativamente a temperatura, acontecerá uma coisa bastante interessante. Quando a temperatura aumentar de 20 para 30 graus, o sapo não se mexerá. Na verdade dará sinais de que está gostando. Porém, à medida que a temperatura for aumentando gradativamente, o sapo ficará cada vez mais tonto, até que não será mais capaz de sair da panela, até ser escaldado. Por quê? Porque, nos sapos, o mecanismo interno que detecta as ameaças à sobrevivência é regulado para identificar mudanças súbitas do meio ambiente, e não mudanças lentas e graduais.

 


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