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Modelos mentais: somos diferentes

 

O que nos guia pela vida?

 

As diferenças entre nós podem ser substanciais. Para começar, temos diferenças nas posses, nos bens materiais que temos à nossa disposição. Também somos diferentes nas preferências alimentares. Uns gostam de jiló e fígado, enquanto outros detestam. Você provavelmente não tem medo de escuro, pelo menos não da maioria deles. Mas há pessoas que têm. Há também pessoas que têm medo de altura ou fobia de barata. Há pessoas que têm mais iniciativa, e outras menos. Outras têm mais iniciativa sob certas condições. Há pessoas mais obedientes e outras mais rebeldes, mais ou menos sensíveis à forma de falar, mais ou menos persistentes, mais ou menos afetuosas, mais ou menos corajosas.

 

A forma como vemos e nos sentimos a respeito das pessoas pode ser também muito diferente. Você, por exemplo, tem alguma experiência de gostar muito de alguém, enquanto outro acha a mesma pessoa “uma chata”? Ou vice-versa? Também já presenciei casos de alguns funcionários apreciarem muito um chefe, enquanto outros o hostilizam.

 

Somos capazes de direcionar nossa atenção, mas prestamos atenção em coisas diferentes. Ao olhar para outro ser humano, por exemplo, um olha cabelos e outro olhos. Um olha a aparência geral enquanto outro se fixa na roupa. Somos diferentes também nas regras que usamos para nos guiar: enquanto um não mataria uma mosca, outro não se importa com a vida dos outros. Enquanto um pensa primeiro em si mesmo, outro pensa nos outros, enquanto um terceiro busca um equilíbrio. Um quer ter sucesso na profissão em que atua, enquanto outro quer mudar de profissão.

 

Podemos também ser diferentes na resposta às situações da vida. Dois jogadores de futebol vivem a mesma experiência, quebrar a perna em uma disputa de bola. Entrevistados, um reclama do “azar” que teve, enquanto o outro (mostrado na televisão) aceita melhor o ocorrido, dizendo que “Deus tem algo melhor para mim no futuro”. Outro exemplo: duas crianças de 5 anos estão em uma mesma situação, em um clube, a vários metros da mãe. De repente, descalças, elas estão pisando em cimento quente. Uma começa a chorar e chamar pela mãe. A outra (presenciada por mim), primeiro caminha até a sombra mais próxima. Em seguida, olha em volta e descobre uma passagem com sombra e gramada, e caminha por ali até onde está a mãe.

 

Enfim, somos diferentes. E o que nos torna diferentes? O que faz com que duas pessoas, diante da mesma situação, percebam e se comportem de maneiras diferentes? Por que somos tão parecidos e ao mesmo tempo podemos ser tão diferentes?

 

Bandler e Grinder, em A Estrutura da Magia, expressaram a resposta assim:

 

“Nós como seres humanos não operamos diretamente no mundo. Cada um de nós cria uma representação do mundo em que vivemos – isto é, criamos um mapa ou modelo que usamos para gerar nosso comportamento. Nossa representação do mundo determina em grande escala o que será nossa experiência do mesmo, como perceberemos o mundo, que escolhas teremos à disposição enquanto nele vivermos".

 

Peter Senge e outros, por sua vez, em A Quinta Disciplina - Caderno de Campo, o disseram assim:

 

“Modelos mentais são imagens, pressupostos e histórias que trazemos em nossas mentes, acerca de nós mesmos, outras pessoas, instituições e todo aspecto do mundo. Como uma vidraça que emoldura ou distorce sutilmente nossa visão, os modelos mentais determinam o que vemos. Os seres humanos não podem navegar através dos ambientes complexos do nosso mundo sem ‘mapas mentais’ cognitivos (...).

 

Diferenças entre modelos mentais explicam porque duas pessoas podem observar o mesmo acontecimento e descrevê-lo de modo diferente; elas estão prestando atenção a detalhes diferentes. Os modelos mentais também determinam a nossa forma de agir. Por exemplo, se cremos que as pessoas são basicamente confiáveis, podemos conversar com novos conhecidos de modo bem mais livre do que se acreditamos que não se pode confiar na maioria das pessoas.”

 

Portanto, nós, para nos conduzirmos pela vida, temos que ter em nossa mente modelos de como é e está o mundo, de como são e estão as pessoas e cada pessoa, de quem somos e o que queremos. Quando falamos, por exemplo, em “auto-imagem”, estamos nos referindo a um modelo que temos de nós mesmos. Quando você tem uma “impressão” sobre alguém, isto significa que está mantendo um modelo sobre a pessoa. Com base nos nossos modelos, definimos nossos objetivos, as estratégias para atingi-los e resolvemos o que fazer quando estas não dão certo. Somos modeladores por excelência.

 

Os modelos que armazenamos em nossas mentes constituem a nossa inteligência? Como vamos ver, os modelos são apenas uma parte da história.

 

Modelos mentais: a grande dificuldade

 

Conscientização é a primeira etapa

 

Se modelos mentais fazem parte da nossa inteligência e convivemos com eles todo o tempo, porque podemos falar de modelos mentais com alguém e este ou esta fazer aquela expressão de quem jamais ouviu falar do assunto? A resposta representa também a maior dificuldade ao se lidar com modelos mentais: eles estão em grande medida inconscientes. Como disse Peter Senge, em A Quinta Disciplina:

 

"Os problemas dos modelos mentais não estão no fato de eles estarem certos ou errados - por definição, todos os modelos são simplificações. Os problemas com os modelos mentais surgem quando os modelos são tácitos - quando eles existem abaixo do nosso nível de consciência."

 

Como Senge complementa, modelos inconscientes não são examinados, e como não são examinados, permanecem inalterados.

 

Significados de "inconsciente"

 

Dizer que modelos mentais estão inconscientes pode ter vários significados:

 

1) Não prestamos atenção neles

 

Você possivelmente não estava consciente da sensação do seu pé esquerdo em contato com a meia, o sapato ou o chão até que eu o mencionasse. De maneira geral, há várias coisas que sõ ficam inconscientes porque não direcionamos nossa atenção para elas. Um exemplo clássico é o da estratégia mental de soletração. Por exemplo, soletre "sistema"; como você faz? A estratégia de pensamento típica é gerar uma imagem interna da palavra e ir lendo cada letra. Mas não prestamos atenção nisso, nem precisamos, há uma parte do nosso pensamento que funciona melhor quando inconsciente. Imagine o que pode acontecer se você estiver dirigindo e ficar prestando atenção no que está pensando. A atenção, no caso, deve passar a maior parte do tempo buscando informações do que está acontecendo lá fora.

 

2) Não estão em forma visível

 

Uma criança em idade pré-escolar se expressa com facilidade usando a linguagem, que tem muitas regras sintáticas e exceções, além de usar certos tons de voz e não outros, em sintonia com o que quer. Para conseguir algo, pedir em certos tons de voz funciona, e em outros não. Ela fala usando regras, mas não podemos dizer que as regras estão lá, porque ela não as aprendeu na escola, e sim por observação de padrões usados por outras pessoas.

 

3) Estão realmente inconscientes

 

Uma pessoa que acredita que é "tímida" pode ter gerado essa crença há tanto tempo e isso ter se incorporado tão harmoniosamente à sua auto-imagem que ela parou de prestar atenção e, se quiser fazer isso, terá que usar uma estratégia que o possibilite ou facilite.

 

Formas de conscientização

 

Cada significado abre alternativas distintas para a conscientização de algum modelo mental que estamos usando.

 

A primeira é obviamente prestar atenção, como no caso da soletração. Uma pessoa que fica deprimida por ter uma "voz" interna que fica dizendo o que ela fez de errado pode dirigir sua atenção para o canal auditivo interno (veja  Inteligência Emocional: Depressão - doença ou capacidade?). Uma pessoa com medo pode buscar por imagens associadas à emoção. Esta alternativa de prestar atenção possui em si várias possibilidades, que estaremos detalhando em uma próxima matéria.

 

A segunda é, no caso de não haver regras instaladas e sim um padrão de comportamento ou expressão, a alternativa é observar vários comportamentos e detectar padrões. Um exemplo é o uso do verbo 'ser' para descrever estados, como "sou tímido com mulheres bonitas" ou "sou incapaz de X". Há pessoas que realmente tem essa crença no formato de linguagem, mas outros podem simplesmente estar se baseando em reações anteriores. Há pelo dois padrões observáveis aqui: Um é comportamental, o padrão de se comportar timidamente em certas situações. O outro é o uso do verbo 'ser' para descrever estados, que são dinãmicos, como se fossem algo permanente.

 

A terceira alternativa pode representar o maior grau de dificuldade, em particular porque a conscientização de algo profundo, possivelmente rejeitado, pode provocar emoções limitantes e prejudicar um processo de aperfeiçoamento dos modelos mentais.Para isso existem várias linhas de terapia, a hipnose e técnicas como o uso de palavras como estímulo com a subsequente observação (prestar atenção) das respostas internas produzidas. Os aspectos mais relevantes aqui são a intenção de busca e a disponibilidade de opções de ação para lidar com o que for encontrado.

 

Uma bom ponto de partida para a conscientização dos modelos mentais é saber o que pode haver neles, tema da matéria Conteúdo dos modelos mentais.

 

Formas de representação e cuidados

 

Uma vez que conseguimos detectar algo dos nossos modelos mentais, é importante ter uma boa forma de representação do que descobrimos. Nossos modelos mentais atuais vão estar afetando nossa forma de descrever o que encontramos. Por exemplo, posso descobrir que, quando observo uma pessoa com alguma deficiência física, direciono meu foco para o defeito ou o que considero um defeito. Se a partir dessa observação eu gero um rótulo do tipo "Como sou preconceituoso", na verdade posso estar reforçando uma parte do meu modelo, ao invés de melhorá-lo. O ponto aqui é ter opções de ação objetiva para a forma de representação; se eu tenho opções de melhoria para quando descubro que "sou" algo, ótimo, caso contrário pode só servir para eu ficar chateado.

 

Quanto mais factual for a representação do nosso conhecimento, isto é, quanto mais distante da abstração e mais próximo do nível dos acontecimentos, mais serão as opções de ação. Se, ao invés de rotular-me, eu me concentrar no padrão de dirigir a atenção para certos detalhes das imagens em detrimento de outros (que é uma habilidade), posso exercitar-me em focar também outros aspectos, enriquecendo a habilidade já instalada.

 

Como nosso corpo e mente são sistemas integrados, aprender a pensar sistemicamente e usar a linguagem do Pensamento Sistêmico para representar nossas descobertas será uma boa, a melhor ou quem sabe a única opção útil.

 

Será mesmo necessário a conscientização?

 

Certas afirmações conclusivas às vezes me fazem pensar se não há alternativas. Isso se aplica aqui: será que precisamos mesmo ter consciência dos modelos mentais? Percebo uma alternativa, baseada no fato de que nossa mente é auto-organizada, isto é, interagimos com ela, mas, assim como um computador se organiza por si mesmo, ela tem lá sua ordem. A alternativa que vislumbro é o aprendizado de novas formas de pensar, como o Pensamento Sistêmico já citado. Bem aprendido, é natural que nosso sistema se reorganize em função das novas habilidades. Afinal, modelos mentais são gerados por habilidades de pensamento (veja Como são criados os modelos mentais). Nesta opção, apenas instalamos as novas habilidades e permitimos que o sistema se reorganize, enquanto observamos para ver se está indo bem e, se não estiver, fazemos então os ajustes necessários. Sugiro considerar também essa possibilidade.

Funções dos modelos mentais

 

Como eles nos apóiam e influenciam

 

Percebemos, entendemos o mundo e fazemos escolhas a partir dos nossos modelos mentais. Veja nesta matéria vários papéis dos modelos mentais na nossa inteligência e uma atividade para você comprovar isso no nível experiencial.

 

Os modelos mentais atuam na nossa inteligência exercendo as seguintes funções:

 

Guiar a percepção e a atenção – Diante de uma situação qualquer, nossos modelos nos conduzem a prestar atenção em algumas coisas em detrimento de outras. Um jornalista político, por exemplo, será atraído prioritariamente para um fato que possa virar uma notícia também política. Se ele passa por uma esquina e percebe um acidente comum, talvez não vá conferir. Mas se o acidente envolve um político famoso, ele simplesmente não vai poder deixar de lado o acontecimento. Agora imagine que junto com o político acidentado havia uma mulher que não era sua esposa...

 

Nossos modelos guiam nossa atenção de várias formas. De maneira geral, prestamos atenção no que é importante, perigoso, útil (por exemplo, para algum propósito que temos), novo, interessante ou no que a princípio nos parece ser essas coisas. Note que tudo isso é muito pessoal; o que é importante, útil ou perigoso depende dos modelos mentais e das intenções de cada um. Como disse um humorista, não existe piada velha; existe gente que a conhece e gente que não a conhece.

 

Veja a atividade abaixo para verificar melhor essas afirmações.

 

Guiar a cognição – O que significam os fótons, vibrações do ar e sensações táteis que recebemos? Vibrações fortes do ar se chamam “vento”, enquanto que outras mais fracas se chamam “som”.  Alguns sons são “música”, enquanto que outros são “falas” e devem ser compreendidos. Ventos fracos, ou “brisas”, não requerem ação, enquanto que ventos muito fortes, ou “ventanias” e “furacões”, ensejam providências.

 

Sensações de dor na coxa podem ser um “problema no ciático” ou “uma dor passageira”, e cada interpretação conduz a cursos de ação diferentes ou a nenhum. Uma vez tive uma “dor de dente” e a dentista abriu onde indiquei sem nada encontrar. Posteriormente a dor foi identificada como sintoma de uma sinusite.

 

Nossa cognição vai mais além. Para sabermos o que fazer, muitas vezes precisamos saber o que está acontecendo ou que acontecimentos conduziram à situação atual. Por exemplo, Se o Windows inicia anormalmente com uma tela azul de verificação de disco, posso compreender o porquê se me lembrar de que desliguei o computador sem desligar o Windows. Se não fiz isso, posso deduzir que outra pessoa o fez, ou que faltou energia. Tudo isso é guiado pelos modelos mentais, que contém conhecimentos sobre como o Windows funciona, apoiados pela lembrança de percepções e experiências .

 

Definir objetivos e estratégias – Percebemos, compreendemos e interpretamos o mundo e agora precisamos fazer algo para conseguir o que queremos. O que fazer? Como fazer? Quando fazer? É preciso mesmo fazer algo ou podemos deixar as coisas acontecerem? Será melhor buscar informações? Ou será melhor dizer alguma coisa? Em que tom de voz? Nossos modelos nos dizem o que é possível, do que somos capazes, as ações possíveis em cada situação, do que é provável que funcione e do que com certeza não vai funcionar.

 

Tomar decisões – Uma vez que temos disponíveis as ações possíveis, temos que escolher. Nossos modelos mentais nos informam o que é mais importante, o que é prioritário ou não, na forma de critérios de decisão. Por exemplo, se você é um gerente de uma empresa e está negociando com outra, o que é importante: atender ao interesse da sua empresa? Atender aos interesses de ambas as partes de forma equilibrada? Existem pessoas que nessa situação atendem prioritariamente aos seus próprios interesses...

 

Sentir - Se você escuta um som suspeito lá fora, pode ser que sinta medo. De onde vem o medo, do som? Na verdade o medo advém de você imaginar algum perigo, do modelo mental que está elaborando da situação. Se você cria coragem (usando também seus modelos), vai lá e verifica com certeza que é um gato, seu modelo é atualizado e você volta à calma.

 

Boa parte do que sentimos é influenciado pelos nossos modelos mentais. Às vezes temos consciência deles, outras vezes nem desconfiamos.

 

Teste isso e verifique por si mesmo: imagine por um momento que você está morrendo de fome e saboreando sua guloseima predileta, com a melhor boa do mundo. Eu fiquei com água na boca só de escrever... De quebra, note a capacidade que você tem de facilmente fazer de conta que está em uma situação diferente da atual, você vai usá-la a seguir.

 

Verificando a influência

 

Como uma verificação mais apurada da influência dos modelos mentais na percepção e cognição (e consequentemente nas escolhas), note o direcionamento da sua atenção ao observar a imagem a seguir com os olhos das pessoas indicadas. Preste atenção em algo ao seu redor por um segundo antes de fazer o próximo, para desativar melhor a intenção anterior.

 

 

 

a)  Alguém que adora praia e há um ano não vai a uma;

 

b) O responsável pela segurança dos hóspedes do hotel-parque que existe ali,  trabalhando;

 

c) O responsável pela segurança dos hóspedes do hotel-parque que existe ali,  de folga;

 

d) Alguém que ama praia, está estressado e há cinco anos não vai a uma;

 

e) Um fisioterapeuta especializado em  RPG (Reeducação Postural Global);

 

f)  Alguém muito curioso, que tem uma compulsão por ler tudo que há para ler

 

g) Alguém a quem foi pedido que criticasse a qualidade da fotografia, no que se refere ao enquadramento;

 

h)  Uma pessoa muito religiosa;

 

i)   Alguém que está fazendo um jardim em casa e está procurando idéias;

 

j)   Alguém com medo fóbico de alturas.

Vencendo medos perceptivos

 

Lições de uma montanha-russa

 

A situação era peculiar: do lado de fora de um parque de diversões, eu olhava a montanha-russa: um carrinho estava subindo, lentamente. Ele fez a curva ao final da subida e, ainda bem lentamente, foi se movendo em direção à próxima curva. Ao fazer esta, o carrinho despencou, as pessoas gritaram e foi então que senti o maior frio na barriga. Estranhei, porque eu estava com os pés firmes no chão, como é que podia estar reagindo ao que estava acontecendo a 50 metros com outras pessoas? Investigando meus processos mentais e minha percepção, achei uma possibilidade de explicação para o fato, bolei uma solução, testei-a e na mesma hora passou o efeito. Essa solução, que testei em outras situações semelhantes, é o que descrevo aqui.

 

Fundamentos

 

Entender o que fiz requer saber duas coisas sobre o funcionamento da nossa inteligência: os modelos mentais e a dinâmica da atenção.

 

O primeiro fato é que não operamos diretamente no mundo, e sim a partir das percepções que temos do mundo e o que fazemos com essas percepções, que compõem os nossos modelos mentais. Sem modelos mentais não poderíamos fazer nada; tente por exemplo tomar uma decisão qualquer só com o que você percebe no presente. Mesmo se for saciar uma simples sede, você precisa ter um modelo mental da sua casa ou do ambiente em que está e das opções potáveis que existem. Quando não tem, sai procurando (talvez e somente se a sede for suficientemente intensa!). Se é uma decisão de maior impacto, como casar-se, você precisa ter um modelo mental atraente da futura vida, ou certamente não se casará, a menos que obrigado, seja por si mesmo ou por outras pessoas.

 

O outro aspecto da inteligência é a dinâmica da atenção e da percepção. Agora o foco de sua atenção está neste escrito, mais especificamente nesta palavra, agora nesta, agora nesta, e neste exato momento nesta... Ou seja, sua atenção segue um fluxo no tempo. Esse fluxo pode ser mais ou menos estruturado. Quando lê, por exemplo, sua atenção é conduzida pelo nosso padrão de escrever de cima para baixo e da esquerda para a direita e é estruturada. Quem está dirigindo um automóvel pode ter a atenção estruturada ou reativa. Se o motorista segue um padrão de olhar para a frente e de vez em quando olhar os retrovisores, seu fluxo de atenção é estruturado. Quando vê um pedestre em situação perigosa, a tendência é concentrar a atenção nele e esquecê-lo assim que não for mais importante, o que caracteriza direcionamento reativo da atenção. Dirigir é uma combinação de direcionamento estruturado e reativo, como você pode notar. Outra possibilidade para o direcionamento da atenção é a escolha pura e simples. Por exemplo, você pode prestar atenção em qualquer parte deste texto, a qualquer momento, nada lhe prende ou limita exceto sua decisão de fazê-lo ou não.

 

A realidade via de regra proporciona muitos estímulos visíveis, audíveis e sensíveis, alguns dos quais podemos ignorar e outros não. A percepção de um ser inteligente, portanto, deve se alternar um bocado no dia-a-dia. Se você ao ler isto ouvir um barulho, sua atenção naturalmente vai se desviar por um momento para interpretar o estímulo e avaliá-lo, porque pode ser uma explosão ou outra ameaça ou simplesmente por curiosidade. O processamento dos estímulos que nos chegam pode ser inconsciente, isto é, nossa mente pode filtrar os estímulos que chegam ao consciente, só deixando chegar a nós os importantes. Isso tem características de habilidade, é aprendida e amadurecida, podendo ser treinada intencionalmente.

 

A característica dinâmica da atenção tem várias implicações. Por exemplo, pessoas que reagem a qualquer estímulo em geral, sem filtros de importância treinados, podem ter dificuldades de concentração em ambientes ruidosos. Já fiz e já vi outras pessoas saírem do foco e não perceberem: você está falando com ela e de repente ela vê algo e faz um comentário estranho à conversa, como se nada mais estivesse acontecendo. O nosso próprio nome é um estímulo ao qual dificilmente deixamos de responder desviando a atenção; também já vi um educador usar o nome da pessoa com freqüência ao falar com ela, o que suponho que seja uma forma de prender a atenção da pessoa. 

 

O fluxo de atenção por si também é muito, muito importante, porque há um bocado de coisas que acontecem no nível inconsciente, como por exemplo sentir os pés no chão e perceber tensões no corpo, entre outras. Para verificar isso, dê uma geral no seu corpo procurando por alguma parte tensa. Muitas pessoas não incluem, por exemplo, a testa no seu fluxo de atenção, e nem percebem que a franzem quando falam ou cantam. Esse fluxo da atenção é extremamente rápido, e às vezes só notamos quando ele não acontece, como quando estamos tão ligados em algo interessante que esquecemos todo o resto.

 

Ambos, modelos mentais e atenção são processos, e por isso não são ruins, bons nem algo entre esses extremos; são como ferramentas cuja utilidade depende da forma como são usadas. Os dois trabalham juntos para formar nossa percepção, como os pólos de um imâ, e isso tem várias utilidades. É por meio deles que conseguimos, por exemplo, nos colocar no lugar do outro e ver do ponto de vista dele, o que é chamado na PNL de posição perceptiva. Note a combinação desses dois recursos ao assistirmos um bom filme. “Entramos” no filme e passamos a viver dentro do modelo mental do filme. Para conseguirmos isso, temos que deixar de prestar atenção no nosso próprio corpo e no ambiente. Experimente assistir a um filme notando de vez em quando onde está. Acredito que foi por isso que um filme do Arnold Schwarzenegger fracassou, um que seu personagem saía de uma tela de cinema e ia para a “realidade”: os espectadores eram lembrados de que estavam em um cinema, “desligando” o modelo mental do filme.

 

O problema compreendido e solucionado

 

Foi com base nessas compreensões que eu pude entender como conseguia sentir frio na barriga apenas olhando a montanha-russa, e o sucesso da minha intervenção sustenta sua validade. Descrevendo passo a passo, eu percebi que tinha feito o seguinte:

 

- Olhei a montanha-russa, com foco no carrinho.

 

- Quando ele começou a descida, eu me coloquei na posição perceptiva de estar dentro do carrinho. Ao fazer isso, mesmo que por um segundo, o fluxo de minha atenção deixou de passar pelo meu corpo e qualquer outra coisa, e o modelo mental pareceu real naquele momento

 

- Reagi à "realidade" do meu cenário interno do momento com uma reação semelhante à que teria se estivesse realmente acontecendo.

 

Devo fazer isso muito bem, porque comecei a ver o que eu veria, ouvir o que ouviria e sentir o que eu realmente sentiria se estivesse lá, apenas com menor intensidade. Uma habilidade desenvolvida, creio eu, daquelas que não se sabe quando foi aprendida.

 

Pensei então: se enquanto eu olho o carrinho eu mantiver minha referência de realidade direcionando a atenção para o contato dos pés com o chão, o frio não vai acontecer. Fiz isso e foi um sucesso imediato, não tive mais qualquer sensação incômoda.

 

Posteriormente teste novamente essa estratégia em um lugar alto, com o mesmo bom resultados. Para mim foi muito útil: imagine o que senti, com essa habilidade antes inconsciente de entrar em uma posição perceptiva, ao assistir um documentário de meia hora sobre escaladores de prédios!


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